Conflito no norte da Etiópia rompe acordo de paz de 2022 e reacende guerra

Reacendimento do conflito no norte da Etiópia
Na quinta-feira, combates renovados no norte da Etiópia destruíram efetivamente o acordo de paz assinado em 2022, encerrando uma guerra devastadora que durou dois anos. As forças rebeldes do Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF) mobilizam-se para uma luta armada visando remover o primeiro-ministro federal.
Os principais envolvidos são tropas federais da Etiópia e combatentes do TPLF, um grupo político armado da região de Tigray, no norte do país. O conflito original ocorreu entre novembro de 2020 e novembro de 2022, com a assinatura do acordo de paz em Pretória, na África do Sul.
Tropas de Eritreia apoiaram as forças etíopes contra o TPLF nesse conflito, que resultou em cerca de 500 mil mortes, segundo pesquisadores da Universidade de Ghent, incluindo vítimas de violência, fome e colapso dos serviços de saúde.
Tensões políticas e nova aliança contra o governo
Após o acordo de paz, uma administração provisória, leal ao primeiro-ministro Abiy Ahmed, foi instalada em Mekelle, capital de Tigray. No entanto, o TPLF continuou manobrando para controlar politicamente a região.
Recentemente, o TPLF mobilizou amplamente, unindo antigos adversários para destituir Abiy do poder em Adis Abeba, capital federal. No domingo, o TPLF e seis outros grupos de oposição formaram uma aliança para derrubar o Partido da Prosperidade, partido governante reeleito em junho, mas cuja votação foi boicotada pela maior parte da oposição.
Em maio, o TPLF forçou a saída do líder regional Tadesse Werede, aliado de Abiy, substituindo-o por um conselho liderado por Debretsion Gebremichael, ex-comandante do conflito anterior.
O governo acusa o TPLF de tentar formar aliança com Eritreia para desestabilizar o país. Por sua vez, o TPLF acusa as autoridades etíopes de ataques com drones na região de Tigray. A Eritreia demonstrou preocupação com as declarações do primeiro-ministro Abiy sobre acesso soberano ao Mar Vermelho através do território eritreu.
Ambos os lados negam responsabilidade pelo início dos combates atuais, que ocorrem principalmente em regiões remotas e montanhosas. Na quarta-feira, combatentes do TPLF tomaram o aeroporto de Mekelle das forças federais, levando ao cancelamento de voos da Ethiopian Airlines em Mekelle e outras cidades da região.
Reações internacionais e contexto político
A agência oficial do governo etíope denominou o TPLF de "Cavalo de Troia", afirmando que as ações do grupo desafiam a "paciência, concessões e magnanimidade" do governo.
A aliança formada pelo TPLF inclui também o Movimento Nacional Fano de Amhara, o Exército de Libertação Oromo, a Frente de Libertação Nacional de Ogaden, a Frente Unida Democrática Revolucionária de Afar, o Movimento de Libertação dos Povos de Benishangul e o Movimento Democrático dos Povos Gumuz. Essa união de grupos antes adversários pode aumentar a pressão sobre Abiy na capital federal.
A União Africana e o bloco regional IGAD (Iniciativa da África Oriental para o Desenvolvimento) apelaram para a redução das hostilidades. O embaixador americano Ervin J. Massinga expressou decepção com a ofensiva do TPLF, classificando-a como uma decisão controversa que não beneficia a população.
Abiy Ahmed é reconhecido por projetos de infraestrutura ambiciosos para transformar Adis Abeba em uma cidade de classe mundial. Ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2019 pela melhora nas relações com a Eritreia, país que se separou da Etiópia em 1993 após décadas de guerra.
No entanto, a decisão de Abiy de iniciar operações militares contra o TPLF em 2020 surpreendeu muitos. Suas tentativas recentes de garantir acesso soberano ao porto de Assab, na Eritreia, reacenderam tensões com o país vizinho e irritaram a Somália pela negociação de acesso via Somaliland.
Esse novo cenário reforça o risco de uma escalada do conflito na região estratégica do Chifre da África, com impactos significativos para a estabilidade regional.



