DeSantis proíbe câmeras de reconhecimento de placas em rodovias estaduais após investir milhões nelas

Proibição das câmeras nas rodovias estaduais
Na Flórida, o governador Ron DeSantis proibiu o uso de câmeras automatizadas de reconhecimento de placas de veículos em rodovias estaduais. Segundo ele, a tecnologia pode levar a abusos governamentais e ameaçar a privacidade pessoal.
A medida obriga as agências locais a removerem esses equipamentos das estradas sob controle estadual em até 30 dias. A Secretaria de Transporte da Flórida notificou que não emitirá novas permissões para instalação das câmeras nas rodovias do estado.
Contradição entre investimento e proibição
A decisão surpreende porque, no último ano, o governo aprovou cerca de US$ 4,6 milhões (aproximadamente R$ 25 milhões) em pedidos de ajuda financeira para 18 órgãos de segurança locais adquirirem cerca de 440 câmeras para reforçar a fiscalização migratória. Esses valores fazem parte de um programa maior de US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão) lançado em 2025 para apoiar operações com o U.S. Immigration and Customs Enforcement, agência federal de imigração dos EUA.
Ao todo, US$ 147 milhões (R$ 802 milhões) em subvenções foram aprovados, mas apenas US$ 21 milhões (R$ 115 milhões) foram liberados até o momento. As solicitações detalhavam que as câmeras serviriam para identificar rotas de contrabando humano e auxiliar em investigações migratórias. Por exemplo, o condado de St. Johns planejava instalar equipamentos na Rodovia Interestadual 95 (about 1.900 km na costa leste) e armazenar dados por até um ano para mapear padrões de deslocamento e possíveis locais de residência e trabalho.
Tecnologias e reação pública
As câmeras, fornecidas por empresas como a Flock Safety, utilizam inteligência artificial para reconhecer placas, além de identificar marca, modelo e cor dos veículos.
Apesar do uso crescente entre órgãos policiais para encontrar carros roubados, suspeitos procurados e veículos vinculados a crimes, preocupações com a privacidade cresceram. Ativistas e legisladores alertam que o armazenamento prolongado dos dados pode permitir o monitoramento dos deslocamentos diários de cidadãos comuns.
Casos de uso indevido da tecnologia também aumentaram a preocupação.
O governador DeSantis argumentou que o rastreamento da movimentação das pessoas poderia gerar um mercado para venda dessas informações a empresas para marketing e publicidade.
O xerife do Condado de Bradford, Gordon Smith, reconheceu o valor das câmeras para investigações, porém, afirmou que as inquietações da comunidade foram decisivas para a retirada dos aparelhos.
“Esses sistemas nos ajudaram a resolver casos e encontrar pessoas que precisavam ser localizadas. Eles são uma ferramenta útil. Mas o estado tomou sua decisão, e ouvi pessoas na comunidade que se sentem desconfortáveis com essa tecnologia. Por isso, acredito que o correto é removê-las”, declarou.
Dilema na política de fiscalização migratória
A situação demonstra um conflito na gestão da fiscalização migratória na Flórida. Ao mesmo tempo em que o governo investe alto em tecnologia para identificar e interceptar suspeitos de violações de leis de imigração, cresce a preocupação com a vigilância estatal sobre a população em geral.
A nova política força os órgãos locais a revisarem projetos recentes e levanta dúvidas sobre como equilibrar a atuação rigorosa contra a imigração irregular com a proteção da privacidade dos cidadãos.
O gabinete do governador não respondeu a pedidos de informação sobre a contradição entre a liberação dos recursos para as câmeras e a suspensão do uso nas rodovias estaduais, nem se os órgãos beneficiados que ainda não instalaram os equipamentos terão que devolver o dinheiro ou alterar seus planos.



